O ASSASSINATO DA PRINCESA
No prazo de quarenta e cinco dias contados a partir de sua sagração, Príncipe
Urucumacuã declarou concluída a construção da Torre do Tesouro, e somente os
artífices construtores e seus auxiliares também iniciados no conhecimento secreto das
Ciências Sagradas sabiam a exata localização e a senha secreta para adentrar a
misteriosa construção.
Aguardava-se com muita expectativa a chegada da Princesa Irina, de
Avilhanas, a noiva, para que fosse inaugurado o monumento, ainda com a presença do
Grande Rei. Da data da inauguração da Grande Obra, também conhecida por Torre da
Sabedoria, até o dia do casamento do príncipe, seriam contados exatos noventa dias. O
Grande Rei havia programado regressar ao seu reinado tão logo o príncipe inaugurasse a
Grande Obra, concluindo, assim, o grande ciclo iniciado, desde que viajara três anos
passados para as terras do Oriente, em busca de receber conhecimentos de Alquimia e
das Ciências Sagradas.
Rei Médium, Mago Natu e o Grande Rei encontravam-se na Câmara do GRAU
em confabulação, cumprindo rotina diária antes do desjejum, quando um pássaro preto,
emitindo sons agourentos, cruzou quatro vezes em frente à janela. Sem dizer palavra, os
três apenas se entreolharam e compreenderam que estavam prestes a receber
mensageiros com notícias desfavoráveis. Lembrando-se de que ainda estavam
pendentes as negociações dos limites para a confrontação definitiva das terras do
falecido Barão de Corumbi, entre os reinados de Trindade, Avilhanas e Elo Dourado,
Rei Médium quebrou o silêncio e prognosticou:
— Certamente, Bruxo Neno levou para Trindade notícias do Elo Dourado que
desagradaram ao Rei Mor! Preparo-me para receber retaliações mais pesadas que há de
exigir-me ações também mais decisivas...
— Não se trata apenas disso, Rei Médium... Essa é apenas uma outra parte do
problema – acrescentou Mago Natu, com relativa serenidade.
— O que me dizeis, Grande Rei? – quis saber Rei Médium.
— Aguardemos. Não devemos nos preocupar, antecipando acontecimentos,
ainda que saibamos de antemão sobre todas as probabilidades. Aguardemos com
serenidade – desconversou o Grande Rei.
Mago Natu convidou, então, os dois amigos para um passeio matinal pelos
bosques floridos, nas cercanias do palácio. Preferiu deixar o Príncipe Urucumacuã às
voltas com suas próprias ocupações, respeitando seu período de noventena, pois já
passada a quarentena, dali em diante deveria ainda permanecer noventa dias trabalhando
na Torre do Tesouro, até se completar o período preparatório ao casamento. Rainha
Gônia também não iria com eles, ocupada que estava com a administração dos afazeres
palacianos e a atenção aos hóspedes que faziam parte das comitivas do Grande Rei e
dos visitantes de alguns outros reinados próximos.
Aproximadamente ao meio-dia, o salão de refeições já arrumado com pratos,
copos e talheres dispostos às mesas revelava a quantidade exata dos comensais
esperados para o almoço. A governanta, como de hábito, saiu a tocar o gongo pelos
corredores e alas do palácio, enquanto os copeiros ordenadamente traziam aos
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aparadores os pratos ainda fumegantes, assados e cozidos, a completar os espaços entre
as saladeiras de vegetais crus e frutas da época.
Em pouco mais de cinco minutos, toda a família real e a corte do Elo Dourado
estavam a postos, recebendo os convidados, com as honrarias de praxe, para iniciarem a
refeição. Após o almoço, enquanto aguardavam a sobremesa, os homens conversavam,
alegres, sobre banalidades, e as mulheres trocavam opiniões e gostos sobre as receitas
dos manjares servidos. Inesperadamente, ouviram-se ao longe as trombetas anunciando
visitantes. Rei Médium levantou-se de pronto, pediu licença e saiu para se certificar do
que estava acontecendo. Mago Natu o acompanhou e o Grande Rei, no mesmo instante,
convidou o Príncipe Urucumacuã e a Rainha Gônia a segui-lo, conduzindo-os até a
Câmara do GRAU, onde lhes diria a respeito dos episódios vindouros.
Ainda que atrasados sete dias, esperava-se a chegada da comitiva real,
procedente de Avilhanas, com a Princesa Irina, Príncipe Gesu Aldo e seu meio-irmão
Mulato, cocheiro e pajem dos príncipes, também os tripulantes da embarcação, além dos
serviçais da caravana, guardiães e os arqueiros reais. Avistando os adventícios no
desembarcadouro, Rei Médium não distinguiu entre eles os três filhos de Rei Naldo de
Avilhanas e surpreendeu-se, porque a bandeira sinalizadora da categoria dos visitantes,
hasteada ao lado da bandeira do reinado, era preta e não verde, como diria o costume. O
primeiro homem a sair da embarcação adiantou-se aos demais, na direção do Rei
Médium e do Mago Natu. Saudou-os com as reverências necessárias. Sem muitas
explicações, acompanhou o anfitrião e sua assistência. Dentro do Palácio Fortaleza, no
Salão do Trono, entregou ao Imperador uma pesada caixa de ouro, cravejada de
esmeraldas com os monogramas R.N.A., de onde o Rei Médium tirou um pergaminho
amarrado por duas fitas pretas e selado com o lacre do Rei Naldo de Avilhanas. Mago
Natu, presciente das informações contidas naquele documento, percebendo o estado de
ansiedade e preocupação que dominavam os presentes, sempre ao lado do Imperador,
disse-lhe em voz baixa:
— Rei Médium, leia com os olhos. Depois conversaremos sobre as
providências que havereis de adotar.
Sem imaginar que conteúdo tão reservado e grave estava contido naquele rolo,
o soberano obedeceu. À medida que desenrolou o pergaminho, sua expressão
agravou-se, e quanto mais avançava na leitura, mais se transfigurava. Seus olhos
marejaram e, suspirando profundo, não conteve a emoção: começou a chorar.
Os mensageiros do Rei Naldo, de cabeça baixa, circunspectos, evitavam dirigir
o olhar diretamente ao Imperador, porque nenhum deles, até então, presenciara um rei
derramar lágrimas diante de seus súditos. Sem perder a serenidade, no entanto, Rei
Médium chegou à conclusão da missiva, recompondo-se. No final da mensagem, Rei
Naldo de Avilhanas também solicitava ao Imperador, não obstante abusar de sua
generosidade e franca hospitalidade, que acomodasse todos os componentes daquela
comitiva no Palácio Fortaleza por uma curta temporada até que ele, sua esposa, Rainha
Alimpa, e sua mãe, Rainha Alzira, se encontrassem ali, no prazo máximo de trinta dias,
para decidir que rumos dariam aos seus destinos, depois de ouvidos os sábios conselhos
do primo Imperador, do Mago Natu e do Grande Rei.
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Fechando os olhos, suspirando profundo, Rei Médium guardou o rolo,
selando-o novamente, agradeceu aos mensageiros pelo cumprimento de sua missão e
determinou aos seus assistentes que os acompanhassem até suas acomodações, depois
de instrui-los sobre os tratamentos de hospitalidade e costumes do Palácio Fortaleza.
A sós com o Mago Natu, o Imperador fez menção de tirar novamente o
pergaminho da caixa, no intuito de dar ciência ao amigo da trágica mensagem que havia
recebido:
— Não, não, Imperador! Podeis deixá-lo selado e guardado. Deveremos
conduzi-lo à Torre do Tesouro, onde ficará depositado, depois que o Príncipe
Urucumacuã tomar ciência destes acontecimentos.
— Já sabeis, então, de tudo o que aconteceu?
— Sim, amigo. Tive uma visão terrível, num sonho esta noite... Sei de tudo que
se passou. Posso lhe assegurar, antecipadamente, que Calico cometeu o maior de todos
os equívocos de sua vida: mandou torturar e queimar o filho Mulato, por um crime que
ele não cometeu!
— Oh, céus! E quem o punirá por isso?
— O tempo, meu caro. O próprio tempo... Vem, vamos encontrar Urucum na
Torre do Tesouro. Tenho certeza de que o Grande Rei, no momento, está com a Rainha
Gônia, Kururu e a Princesa Hévea, na Câmara do GRAU. Já devem estar cientes ou, no
mínimo, preparados para receber as notícias.
Rei Médium admirou-se da tranquilidade do Mago Natu, e desta vez o ouviu
referir-se aos príncipes gêmeos pelos apelidos familiares. Sem perguntar as razões,
pegou a caixa de ouro com o pergaminho, fechou as janelas do salão e cobriu o
majestoso trono com uma manta preta. À saída do aposento, ordenou ao guarda de
honra postado à entrada que hasteasse a bandeira de luto no mastro à esquerda da
bandeira do Elo Dourado e cobrisse todos os outros símbolos da realeza do império,
fixados nos quatro baluartes das muralhas do palácio, com um tecido preto.
Em menos de dez minutos, o Elo Dourado estava mergulhado em profundo
silêncio, e o Sol encoberto de grossas nuvens. Logo depois, um vendaval assolou a
cidadela, forçando os que estavam nos campos a voltarem as suas casas e os que
estavam nas ruas a se abrigarem, resguardando-se do mau tempo, preparando-se para
receber más notícias.
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