NA TORRE DO TESOURO
No percurso compreendido entre o Salão do Trono e a Torre do Tesouro, o
Imperador recebeu orientação do Mago Natu para que subisse aos seus aposentos e
trocasse de vestimentas. Era protocolo no reinado, diante das comunicações de morte e
de outras calamidades, o rei se apresentar aos súditos com indumentária preta, a fim de
prepará-los antecipadamente para receber notícias pouco alvissareiras, evitando assim as
surpresas negativas. Poucas vezes, depois que recebera o trono do Elo Dourado, Rei
Médium tivera que usar roupa preta. Rainha Gônia também já se vestira de preto outras
vezes, e nesta acrescentara ao figurino um solidéu colocado sobre a cabeça, cravejado
de pedras ônix e bordado com fios de prata e pérolas negras. Embora seu rosto
irradiasse tristeza e intenso sofrimento, sua graciosa beleza aumentara, realçada pelo
brilho contrastante das pedras e a cor de suas vestes. De igual forma, estava vestida a
Princesa Hévea, que ainda não compreendera exatamente tudo o que estava se passando.
Príncipe Kurokuru, alheio aos pormenores do episódio, mas solidário à consternação de
seus familiares, apenas cobrira a cabeça com um turbante de linho preto, adornado de
cordões de pérolas e bordado com fios de ouro.
O Grande Rei escusou-se de acompanhar os familiares do Rei Médium à visita
ao Príncipe Urucumacuã, conforme explicara ao Mago Natu: melhor que permanecesse
na Câmara do GRAU, absorto e contemplativo, vibrando em energia positiva para
neutralizar, trazendo conformação a todos pelas aflições que cruzavam.514
A chegada súbita do tristonho cortejo à entrada secreta da Torre do Tesouro
não pegaria o Príncipe Urucumacuã de surpresa. Desde que iniciara a construção
daquele é difícil, sob a orientação do Grande Rei e a supervisão permanente do Mago
Natu, sabia que cada um dos nove pavimentos, dispostos em espiral na direção do
interior da terra, corresponderiam à efetiva prática das nove virtudes, em diferentes
fases de sua vida, a partir de então.
Intuitivamente, o Príncipe saíra naquela manhã do mais profundo e oculto dos
compartimentos, onde se encontrava, recluso há algum tempo, estudando a Pedra de
Filosofar e se energizando com os fluidos emanados pela pirâmide de cristal, cujo
vértice superior fora instalado voltado ao Interiorem Terrae. Subiu à superfície com o
objetivo de abrir o portal mágico, com a senha numérica e a palavra secreta que havia
recebido do Grande Rei: Arrematel-20304.
Assim que o portal se abriu, Mago Natu entrou primeiro e, um por um, pegou
nas mãos dos componentes da família real e os conduziu para dentro, transpondo o
portão de jade. Admirado, Rei Médium, o primeiro a entrar, perguntou ao Mago a razão
daquele procedimento:
— Este lugar está completamente magnetizado com forças telúricas de
destruição e criação. Se o Príncipe Urucumacuã vos tocar diretamente, causará extensas
e dolorosas queimaduras ou até mesmo poderá matar-vos, não por intenção, mas por
condição. Portanto, evitai vos encostar às paredes; tampouco tocai diretamente no
príncipe, até que ele saia deste local, após cumprir o pentecostes, transpondo o portal de
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jade, para descarregar no solo a energia assimilada, enquanto durou o procedimento de
construção à conclusão desta Grande Obra.
— Quando poderá transpor o Portal e voltar ao nosso convívio, Mago Natu? –
perguntou a Rainha Gônia.
— Três dias depois que souber do conteúdo desta mensagem. Por gentileza,
Rei Médium, entregue-lhe a caixa de ouro.
Antes que o Imperador passasse o objeto às mãos do filho, Mago Natu o pegou
e o envolveu numa toalha branca de linho, que trouxera dobrada sobre os ombros.
Príncipe Urucumacuã serenamente recebeu a caixa, desdobrou a manta de linho,
devolveu-a e esperou a ordem do Mago:
— Soberano Príncipe da Beira do Rio, Alteza e Sereno Cavaleiro da Misteriosa
Ordem do Pássaro de Fogo, descei às profundezas desta bastilha e, no trajeto, abre esta
caixa e conhece cada uma das nove partes de seu conteúdo. Não sairás deste
confinamento até que venha o pôr do sol no terceiro dia de vossa dor; até que encontreis
o verdadeiro mistério de vossa epifania! Até que sintas o súbito entendimento e a
compreensão da essência do divino que habita em Tu. Até que sintas a realização de
uma parte do vosso sonho de criança. Até que encontreis finalmente a última peça deste
enigma e consigas ver tua imagem completa. Até que se ilumine vosso pensamento,
inspirado no divino e único dom de tua essência sobrenatural. Nada direis, nem
comentareis com os profanos sobre o que vos sucedeu, no entanto!
Rainha Gônia passou às mãos do Mago a cesta que trouxera consigo, contendo
frutas da estação, pães sem fermento, manteiga, mel, chocolate e leite de búfala. Mago
Natu também a envolveu na mesma toalha de linho branco, procedendo a entrega da
cesta e ordenando:
— Podereis comer de tudo. Todavia, neste primeiro dia, só bebereis o leite. No
segundo dia, comereis frutas, pães e manteiga. No terceiro dia, podereis saborear o
chocolate e o mel! Antes que o sol se ponha, ao terceiro dia, colocareis todas as
lágrimas derramadas dentro desta caixa. Ao anoitecer, lacrai o portal de jade com a
senha que recebestes e saía da Torre do Tesouro, fechando a porta exterior com a chave
que somente vós sabeis onde se oculta. Terminada vossa missão, depois de passado um
tempo, só tornarás à Torre do Tesouro quando as sete caixas e as sete partes quebradas
do Espelho Universal, reunindo vossos cinco sentidos, V.oltarem ao I.nterior da T.orre
R.evelando o O.culto L.ugar!
Rei Médium, Rainha Gônia, Príncipe Kurokuru e Princesa Hévea não
compreenderam totalmente a explicação ordenada pelo Mago Natu, mas sabiamente
preferiram não fazer perguntas.
Despediram-se do príncipe, deixando-o a sós no maravilhoso e fantástico
edifício da Torre do Tesouro.
No silêncio de seu recolhimento, Príncipe Urucumacuã bebeu três cálices do
leite de búfala, depositando a cesta com o restante dos víveres sobre um aparador
insculpido na parede revestida de cobre, no primeiro pavimento. Pegou em seguida a
caixa de ouro retangular, cuja tampa reluzia e ressaltava a incrustação das três letras
R.N.A. em pedras preciosas verdes, abriu-a, retirou o rolo de pergaminho escrito com
caracteres pretos e iniciou a descida em espiral, lendo em cada um dos pavimentos, uma
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das partes correspondente ao número em que a mensagem estava seccionada. A cada
patamar descido e a cada parte da missiva lida, o príncipe se consternava e se entristecia
mais e mais. No oitavo pavimento, uma dor profunda o arrebatava. Na passagem do
oitavo para o nono e último pavimento, completamente tomado por um sofrimento
inaudito, o príncipe prostrou-se sobre o último patamar, próximo ao trono que se erguia
sobre a pirâmide de cristal. Angustiado, no estertor da aflição que o arrebatava, não
conteve a amargura, enquanto lágrimas copiosas saltavam involuntariamente de seus
olhos verdes. Sentindo-se no auge da angústia e não conseguindo dominar a tristeza,
gritou a plenos pulmões, numa incontrolável explosão de desespero:
— Grande Rei, Grande Rei, por que me abandonastes?
Sua voz ecoou por longo tempo entre as paredes circulares dos nove
compartimentos da Torre do Tesouro e, restabelecido o profundo silêncio imperante no
mágico edifício, uma claridade portentosa se instalou, impedindo que o príncipe abrisse
seus olhos, ainda que suas lágrimas jorrassem sem parar.
Antes que forçasse abrir os olhos, ouviu uma voz nítida e firme, mas calma e
pacífica, vinda da direção do lugar onde ficava um trono sobre a pirâmide de cristal:
— Por que te angustias tanto, filho meu, se sabes que jamais te abandonarei?
Acaso te esquecestes disso?
Sem abrir os olhos ainda, o príncipe permaneceu deitado, sentindo-se
confortado ao reconhecer a voz do Grande Rei. No entanto, não conseguia conter as
lágrimas que brotavam involuntariamente, ainda que mantivesse os olhos fechados.
Diante do seu silêncio, a voz o interrogou:
— Onde está tua determinação? Porventura sois menos valoroso agora, diante
do infortúnio, do que antes? Claro que não! És predestinado a deixar uma grande
fortuna. Quereis renegar tua própria natureza? Vamos, abre os olhos!
Príncipe Urucumacuã sentiu vontade de atender ao comando daquela voz
acalmadoura para abrir os olhos. Mas, no íntimo, experimentava um medo incontido de
ver face a face o Grande Rei naquele estado de pusilanimidade em que se deixara
fraquejar. Hesitante, mas calado, optou por acatar a repreensão da voz que persistia:
— Fostes escolhido dentre milhares para receber esta missão... Melhor herança
não vos caberia! És filho do Pai de toda a Criação e a ti também estão reservados trono
e coroa de honra e o cetro de louvor! Alegra-te, pois! Considera teu próprio destino e
verás que teu espírito se ufana, porque tua glória está próxima!
Enquanto ouvia a voz inconfundível do Grande Rei, Príncipe Urucumacuã
entreabriu os olhos e uma luz ainda mais intensa, como o brilho do sol, inundou o
ambiente. Certo de que inevitavelmente iria se deparar com a imponente figura do
Grande Rei, sentado sobre a pirâmide de cristal, esforçou-se para abrir os olhos e
erguer-se. Sentando-se, ouviu o barulho de incontáveis pedrinhas caindo sobre o chão.
Ao levantar-se, olhou na direção dos seus pés e constatou que estavam entre preciosos
diamantes do tamanho dos pingos de suas lágrimas. Em estado de êxtase, dirigiu o foco
de seu olhar ao trono de cristal. Surpreendentemente, não avistou o semblante do
Grande Rei. No trono sobre a pirâmide de cristal, apenas um feixe de luz azul brilhante
entrava resplandecente pela claraboia central da Torre do Tesouro.
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Inebriado com o mágico aparecimento das pedras de diamante e a miraculosa
dissipação de todo o seu sofrimento e dor, recompôs-se, pronunciando em voz alta um
salmo de gratidão que há exatos cinquenta dias não recitava:
— Grato, grato, grato, Grande Reflexo Auto Unificado! Eu sou o Teu
G.R.A.U., filho da tua Divina Natureza Absoluta! Sou essência de tua própria essência.
Sou o que te acompanha, desde o princípio, e que te seguirá até o que o primeiro seja o
último e o último seja o primeiro. Quero ouvir a Tua voz! Ainda que te desconheça, Tu
me reconhecerás, porque És a minha espada e meu escudo! És minha armadura e meu
aliado. És minha defesa e fortaleza, minha vitória no combate! Em ti confio, porque és
minha esperança e minha força! Oh, Grande Poder! Oh, meu Grande Poder! Três vezes
grande, três vezes sábio, três vezes admirável!518
O príncipe transfigurou-se, envolvido pela auréola de luz azul-claro brilhante
espargida no recinto. Compreendendo o significado oculto do que o Mago Natu havia
exortado, devolveu à caixa de ouro o pergaminho lido, recobrindo-o com milhares dos
mais puros diamantes transformados dos pingos de lágrimas caídas, espalhados pelo
chão. Lacrou a tampa da caixa com seu selo e, em seguida, abaixo dos monogramas
R.N.A., insculpiu usando a energia ígnea que irradiava de seu dedo indicador as letras
do enigma — VITRIOL.
Depositou o tesouro contido naquele cibório sob o trono de cristal, fechando-o
dentro da lápide, sepultando, assim, o pergaminho da trágica missiva e os milhares de
preciosos diamantes oriundos de sua dolorosa paixão. Situando-se no tempo, percebeu
que já haviam se passado dois dias completos, desde a visita de seus familiares. Sentiu
fome. Buscou a cesta de alimentos e percebeu que havia comido as frutas e os pães com
manteiga. Mas ainda estavam intactos o pote de mel e as barras de chocolate.
Saboreou-os, com gratidão e alegria. Volvera finalmente a sua natureza terrena,
sentindo-se fortalecido e conformado, apesar de toda a tragédia relatada por Rei Naldo
de Avilhanas, notificando os cruéis assassinatos de seus filhos, Princesa Irina e Príncipe
Gesu Aldo, no percurso da viagem para o Elo Dourado, e o bárbaro martírio imposto ao
seu filho bastardo, Mulato, esfolado e queimado vivo, sob a acusação de ter sido o autor
dos dois crimes.
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