PRÍNCIPE URUCUMACUÃ EM CASA
Desde quando o Príncipe Urucumacuã chegara em companhia da
extraordinária Corte do Grande Rei em três de suas portentosas embarcações —
Patientia, Sapientia e Humilitas —, a vida no Palácio Fortaleza e no reinado do Elo
Dourado, em geral, ganhou novos significados. A alegria pelo retorno do amoroso filho,
a visita do Grande Rei, sua alegre comitiva e a proximidade da data do casamento do
“Príncipe da Beira do Rio” com a “Virgem de Avilhanas” pontuavam entre as mais
alvissareiras efemérides das últimas décadas.
Príncipe Urucumacuã havia mudado bastante de fisionomia naqueles três anos
de ausência. Sua farta cabeleira ruiva e lustrosa emoldurava um rosto de traços bem
angulados, seus olhos verdes adquiriram brilho magnetizante e seu porte físico chegara
à plenitude da anatomia masculina. Irradiava uma beleza forte e apaziguadora e sua voz
ganhara o timbre de firmeza temperada de gentileza e cortesia em suas palavras. Alguns
de seus gestos lembravam os mesmos movimentos do Grande Rei, sem parecer frívola
imitação.
Dos mais humildes serviçais aos altos dignitários da corte do Elo Dourado,
todos queriam ouvi-lo, abraçá-lo e ficar o maior tempo possível perto do jovem
príncipe. Muitas perguntas lhe faziam e, a cada resposta, mais se maravilhavam do
conhecimento e sabedoria adquirida por Urucumacuã, além de sua humildade e
simplicidade.
— Parece um deus, dizia a criada que o viu nascer.
— Acaso conheceis algum deus para compará-lo? – debochavam as outras.
— Claro que não, mas continuo achando que ele é um deus, e o irmão gêmeo
também.
— Deuses não são de carne e osso...
— Mas podem se fazer humanos para ensinar o amor e a bondade!
— Neste caso, temos alguns deuses aqui, conosco.
— Temos mesmo!
A voz macia e solícita da Professora Plínia ecoou no corredor do Palácio.
Estava às voltas com a preparação da Câmara do GRAU para a solenidade de
consagração do Príncipe Urucumacuã à Ordem Misteriosa do Pássaro de Fogo. No dia
seguinte, começariam os cerimoniais de apresentação oficial de “Urucum” à nobreza da
Casa Real do Elo Dourado. Mago Natu recomendara alguns cuidados especiais quanto à
arrumação da Câmara do GRAU e solicitara à irmã selecionar as criadas para adentrar
com elas naquele sacrário, especialmente reservado. Entre as servas que conversavam
no corredor próximo dos aposentos do príncipe, requisitou duas, particularmente,
incumbindo-as de limpar com água perfumada de flores de laranjeira todas as peças do
mobiliário, varrer o piso com vassouras de tomilho e ornamentar com lírios do campo,
colhidos antes do sol nascer, na manhã seguinte, em jarras solitárias de cristal e de ouro.
Ninguém mais deveria pisar o chão da Câmara do GRAU, após a limpeza até o dia
seguinte, quando se colocariam as flores nos vasos. Tudo deveria estar
providencialmente arrumado para que a seleta plateia que ali viesse fosse honrada com
as celebrações pela chegada do príncipe herdeiro. Sua consagração nos antigos e
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secretos rituais dos Mistérios do Fogo e unção pelo Grande Rei e pelo Mago Natu,
testificariam o glorioso final daquele longo círculo de preparações às quais se
submetera, seguindo as tradições ancestrais para a formação de sucessores, verdadeiros
xamãs, tempos antes de se casarem. Seriam entregues naquela solenidade as honras,
galardões e lauréis, símbolos das mais altas comendas do reinado, como salvo-condutos
à herança do trono, coroa e cetro reais, legados do pai e legítimo antecessor. Em troca
das honrarias, o futuro legatário ganharia também um sem número de tarefas de alta
complexidade a executar, subordinando-se ao seu talento invulgar e prestigioso
desempenho o sucesso e a vitória em todas elas.
Algo diferente aconteceria naquele dia...
Os rituais de consagração do Príncipe Urucumacuã começaram bem cedo.
Penetrando, pela primeira vez, a Câmara do GRAU, trajando uma comprida túnica
preta, de olhos vendados e descalço, entrou no santificado tabernáculo conduzido pelo
Mago Natu, postando-se em frente ao altar principal de cedro e olíbano, onde
ajoelhou-se para depois se deitar de bruços, apoiando a testa no dorso das mãos
espalmadas, a esquerda sobre a direita. O suave perfume dos lírios colhidos na
madrugada e os incensos de mirra e nardo combinavam aromas propícios aos
arrebatamentos celestiais. Atenta aos acenos do Mago Natu, Professora Plínia iniciou a
execução de harmoniosos acordes no saltério acompanhados pela brandura de um
harpista da comitiva do Grande Rei. Em formação lado a lado, respeitosa e
reverentemente, postaram-se junto ao Grande Rei, o pai e a mãe do príncipe e sete
conselheiros reais. Do lado oposto, Mago Natu, Professora Plínia, outros sete
conselheiros e o irmão gêmeo, Príncipe Kurokuru. O Grande Rei iniciou a cerimônia
salmodiando numa linguagem compreensível apenas aos iniciados. Aspergindo água de
essência de rosas sobre o príncipe, entoou o juramento em forma de responsório, com
voz afinada e forte:
— Crês que somos todos irmãos, gerados à imagem e semelhança da Força
Máxima Incalculável, partículas e átomos dessa mesma energia?
Usando da mesma entonação e força na voz, Príncipe Urucumacuã respondeu:
— Creio!
— Juras que dedicarás tua vida a amenizar os sofrimentos de teus próximos?
— Juro!
— Juras manter-te fiel a esta ordenação por toda tua vida?
— Juro!
— Juras que não te corromperás nem diante de todo o ouro e toda prata, nem
diante da mais valiosa pedra preciosa, nem terá mais valor para ti nenhum objeto do que
os dons que recebeis agora?
— Juro!
— Juras que jamais revelarás o oculto que somente a ti foi revelado?
— Juro!
— E, assim, comprometido estais consigo mesmo porque jurastes o amor. Por
mim, por teus pais, por teus vassalos e servos, eu vos consagro, Urucumacuã, Príncipe
da Beira do Rio, neto de Pay e Olinda, Ofin e Tarope, primogênito de Médium e Gônia,
Grão-Sacerdote da Eterna e Milenar Ordem dos Mistérios do Pássaro de Fogo, sagrado
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pela manhã, ao Sol; pela noite, à Lua; e por todo o sempre ao Fogo Original, para
sujeitar ao teu domínio, a dor, a mentira, a luxúria e a cobiça, enquanto tua mão direita
fizer o que tua mão esquerda não souber.
Pedindo que os presentes se ajoelhassem, o Grande Rei pegou um grande círio
branco de cera virgem, aceso, enquanto o Mago Natu tirava a venda dos olhos do
príncipe, colocando-o em decúbito frontal. Encostando a simbólica vela na cabeça de
Urucumacuã, disse:
— Abram-se as janelas e descerrem-se de ti os véus para que recebas pelo
Portal da Luz a claridade universal do Poder Infinito da Visão Onipotente, que sempre
iluminará tua senda e far-te-á invencível, no Norte, no Sul, no Leste, no Oeste, debaixo
do Sol e da Lua, em cima da Terra e dentro da Água.
Em seguida, impôs as duas mãos sobre a cabeça de Urucumacuã, sem tocá-la,
dizendo:
— Sejas tu, Pássaro de Fogo, UM com teu corpo e espírito.
De posse de um sudário de linho branco encobriu todo o corpo de
Urucumacuã, deixando-lhe apenas a cabeça descoberta:
— Das trevas saíste, à luz tornarás. Descobre a tua cabeça, para que se
complete tua orientação.
Em seguida imantou uma taça de água, derramando-lhe parte no chacra
coronário, concluindo:
— O Fogo morre na água, mas dela é nascente. Purifica-te pela água e pela
provação do fogo. Igne natura Renovatur Integra.
Pede que todos se levantem. Abraça-os, um por um e na vibração da corrente
de energia que começa a circular pela Câmara do GRAU, canta um salmo na mesma
língua em que iniciou a celebração.
Erguendo o príncipe do chão, Mago Natu revestiu-o, encobrindo a túnica preta,
com um longo manto de pura seda, vermelho brilhante, adornado às costas, por um
grande pássaro cor de fogo, bordado com fios de ouro no interior do hexágono formado
no espaço interno da estrela de seis pontas, desenhada a partir da superposição de dois
triângulos com as bases e vértices opostos.
Após, rompendo o mais completo silêncio, ouviu-se um estalido forte, agudo
como o tinir de objeto metálico, ecoando pelo ambiente até desaparecer. Em seguida,
um raio de luz formatou-se numa flama vermelho cintilante, qual chama acesa, vinda da
direção do Portal Sul, entrando pela janela e posicionando-se sobre a fronte lívida do
Príncipe Urucumacuã. Seus cabelos ruivos ficaram como minúsculos raios brilhantes, e
todo o seu semblante resplandecia. No mesmo momento em que ergueu as mãos postas
para fazer a saudação de gratidão ao Grande Rei, saíram, de seus dedos longos, faíscas
de pequenas chamas de fogo azul fluorescente que, num movimento oscilante,
circundaram o corpo do príncipe, ritmados numa dança suave, percorrendo-o em espiral
de baixo a cima, para logo então unir-se numa única flama, igual ao olho poderoso que
tudo vê, pairando no topo de sua cabeça, por alguns segundos. Enquanto os olhares da
plateia, atenciosos e reverentes, observavam a revelação sobrenatural de poder e força
cominados ao neófito, aquela chama azul cintilante estilhaçou-se em seu núcleo,
fragmentando-se em inúmeras centelhas de luz dourada, semelhantes a partículas de
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ouro, inundando o ambiente com uma chuva de luz, orbitando em torno do príncipe
numa espiral que passou a refletir o espectro das sete cores do arco-íris.
O Grande Rei entoou uma sequência de mantras litúrgicos, com portentosa voz
de barítono, e à medida que pronunciava monossílabos sagrados, apontava com os dois
dedos, indicador e médio esticados, para o espectro radiante da espiral colorida,
direcionando-a aos quatro cantos da Câmara do GRAU. Obedecendo ao comando da
divina voz e à direção apontada pelo divino maestro, a espiral dividida em quatro
segmentos foi aos poucos desaparecendo, como que sugada pelos vasos solitários de
ouro com os lírios do campo.
O semblante do Príncipe Urucumacuã iluminou-se, e uma aura de luz
azul-claro brilhante circundou todo seu corpo. Mago Natu então pegou a coroa de folhas
de Loureiro sobre o aparador de marfim e, erguendo-a, ajeitou-a sobre sua cabeça,
extinguindo assim, a misteriosa chama de energia vermelho coruscante que se
apresentava sobre a fronte de Urucumacuã. A luz que irradiava do corpo do príncipe
iluminava todo o recinto.
Entregando-lhe também o anel da Ordem e o Colar da Obediência,
repassou-lhe a Espada Real com o Pássaro de Fogo, burilado na empunhadura, e as
cinco letras de seu enigma pessoal insculpidas sob o símbolo: T.U.V.X.Z., num ritual
repetido em outros eventos de sagração real. O Grande Rei o abraçou e concluiu a
liturgia, pronunciando em voz alta: Tu, Urucumacuã, vencerás xamãs zombeteiros!
Lembre-se sempre de teu juramento.
Ao que ele respondeu:
— Teu único vassalo, xamã zelador. T.U.V.X.Z.
O Grande Rei entoou ainda a liturgia de fechamento, salmodiando em sua
língua ancestral. Rei Médium olhou para a esposa e viu quando lágrimas lhe vieram às
faces. Dirigindo-se ao iluminado filho, Rainha Gônia entregou-lhe nas mãos o cabochão
de diamante, a pedra de filosofar, a mesma que ganhara no dia do seu casamento,
obedecendo ao ritual proposto pelo Grande Rei. Em seguida, colocou-lhe no dedo
mínimo o anel de pérola negra, que também ganhara do marido quando noivaram, para
que pudesse presentear sua noiva, a futura esposa, assim que ela chegasse ao Elo
Dourado, dois meses antes do dia do casamento.
Apesar de felizes, fruindo as vibrações positivas e benfazejas daquele momento
celestial, pai, mãe e filhos, ao cruzarem seus olhares, abraçaram-se os cinco, e
compreenderam que nem tudo, dali por diante, haveria de ser só felicidades, mas
viveram intensamente a alegria da oportunidade.
Aquela parte do ritual estava concluída. A cerimônia da Provação do Fogo
Sagrado ocorreria mais tarde, à noite, sob a luz da lua, na Praia da Lua Clara, conduzida
pelo Mago Natu.
Ao entardecer do mesmo dia, na Praia da Lua Clara, soprava uma brisa
agradável, depois de um cálido tempo de céu azul. Alguns serviçais concluíam a
instalação de um cenário diferente dos que já haviam sido arrumados naquele local para
os casamentos e outras festas de estação. A derradeira vez que aquela extensão de areia
branca fora tão cuidadosamente limpa e rastelada remontava ao casamento do Rei
Médium com a Rainha Gônia, há vinte e quatro anos passados.
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À sexta hora da tarde, a praia das areias brancas e macias lembrava um reduto
mágico, prestes a experimentar um grande acontecimento. Arquibancadas escavadas na
areia e forradas de alcatifa púrpura emprestavam não só beleza, mas também sobriedade
àquela simplicidade.
No espaço central do grande semicírculo de bancadas na areia, um quadrado de
vinte e quatro por vinte e quatro metros, meio metro mais alto que o nível dos assentos,
isolado por fitas brancas, azuis e douradas – as cores oficiais do Império do Elo
Dourado –, permitia a visão de uma armação em formato de pirâmide, estruturada com
roliços de madeira aromática, mais grossos na base, afinando-se à medida que
ganhavam altura. No cimo da pirâmide, um reluzente cristal em formato piramidal
finalizava e rematava o imponente monumento de madeira. Com os quatro vértices na
direção dos pontos cardeais, a face norte e a face sul da pirâmide estavam em parte
abertos, formando um portal, para permitir que fossem atravessados de uma direção a
outra.
Concluído o trabalho, os serviçais entregaram algumas ferramentas especiais
ao Mago Natu, que as dispôs em ordem sobre um pequeno tablado à entrada do portal
norte da pirâmide de madeira. Professora Plínia veio em seguida, ornamentando de fitas
e flores os arcos de palmas verdes, erguidos nas entradas de cada fileira das bancadas na
areia.
Rei Médium, com antecedência necessária, anunciou aos súditos e amigos dos
reinados vizinhos que todos estavam convidados a assistir àquela cerimônia, ao
contrário do ritual de consagração na Câmara do GRAU, dirigido pelo Grande Rei, ao
amanhecer, cuja plateia resumiu-se à família real e alguns poucos convidados especiais.
Não tardou e uma grande plateia já se posicionara nas bancadas de areia,
iluminadas nos espaços entre uma e outra por archotes e lanternas feitas de ouro,
fincadas na areia, abastecidas de óleos vegetais e resinas naturais de breu, alecrim e
sândalo. O aroma que se propagava, o vento conduzia até as residências e a fragrância
inebriante convidava a população, ainda que pouco entusiasmada, a chegar até o local
da cerimônia.
À hora vigésima, surge o Príncipe Urucumacuã, montando um corcel de
pelagem láctea reluzente, de par com seu irmão gêmeo, Príncipe Kurokuru, também
montando um corcel de pelagem branca, à frente de um séquito, cujo derradeiro
elemento era o Mago Natu. Em formação ritual, os dois irmãos apearam das montarias e
entraram na pirâmide de madeira, cada um por um portal, enquanto quatro vestais,
cavalgando corcéis de cores diferentes – amarelo, vermelho, preto e branco –
postaram-se nos quatro vértices indicadores dos pontos cardeais, trazendo às mãos
bandejas de prata: A do Leste trouxe o sal; a do Oeste, azeite; a do Norte, enxofre; e a
do Sul, o azougue. Mago Natu, o último a tomar posição, numa atitude de humildade e
reverência, saudou com um aceno de cabeça toda a plateia, ajoelhando-se diante do
Grande Rei, cujo assento estava entre o do Imperador do Elo Dourado, Rei Médium, e
da Rainha Gônia. Ainda de joelhos, o Mago pronunciou:
— M.N.O.P.Q.R.S.!
O Grande Rei também o cumprimentou e respondeu à saudação:
— M.N.O.P.Q.R.S.!
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Desfolhando um antigo alfarrábio nas mãos, Mago Natu iniciou a celebração.
Os espectadores, muito atentos, observavam os movimentos dos protagonistas daquele
ritual, semelhantes a uma liturgia de teatro sagrado. A partir do momento em que Mago
Natu convidou o Príncipe Kurokuru a deixar o interior da pirâmide de madeira pela
abertura do Norte, entregando-lhe, além de algumas das ferramentas que estavam
colocadas sobre um pequeno tablado ao lado do monumento, um calhamaço no formato
de um caderno, aramado de fios de ouro, com toda a sua coleção de folhas curativas,
apanhadas nos cata-logo para compor o livro das doenças, o ritual se transformou. O
príncipe gêmeo, coroado com uma guirlanda de folhas de oliveira recebeu também
vestes cerimoniais, uma túnica verde-esmeralda, forrada de seda amarela, bordada com
pedras preciosas em desenhos de flores e folhas, ouviu uma longa profissão de fé,
jurando seus credos e comprometendo-se, sob pena de anátema, a trabalhar pela saúde e
bem-estar de todos os desafortunados daquele reinado, sem lhes exigir quaisquer formas
de pagamento ou retribuição material. Concluindo os juramentos e recebendo a
ordenação de Sacerdote da Cura, Príncipe Kurokuru retomou sua montaria, circulando
quatro vezes pelos quatro lados no cenário isolado de fitas, saindo pelo portal do sul, em
suave marcha.
Enquanto isso, Mago Natu solicitou que todos permanecessem em silêncio,
enquanto ele cantava hinos de louvor, aguardando o Príncipe Kurokuru retornar.
Momentos após, o príncipe regressou andando, vestido com um avental verde sobre
uma túnica branca resplandecente, empunhando uma palma verde e uma coroa de ouro
branco e esmeraldas na cabeça. Havia entregado as oferendas no oculto altar da Honra
Onipresente dos Ancestrais Superiores Consagrados ao Altíssimo.
Príncipe Kurokuru sentou-se ao lado esquerdo do Grande Rei, permanecendo
em profundo estado de contemplação, sem pronunciar uma palavra. Mago Natu
prosseguiu a liturgia, entregando uma taça de bebida sagrada ao Príncipe Urucumacuã,
dizendo-lhe:
— Oh, Sagrado Pássaro de Fogo, Senhor da Morte e da Vida, resplandecei
sobre teu vassalo Urucumacuã, transmutando o sofrimento em gozo e a morte em vida.
Fazei-o penetrar nos vossos sacrossantos mistérios e abri-lhe as portas insondáveis da
percepção e dos encantos. Que ao seu toque, o metal se dobre e a pedra se quebre e tudo
se transforme segundo sua vontade. No Sol se faça a chuva e na Chuva se faça o sol,
tudo em conformidade com Vosso imperscrutável domínio e vontade. Tudo em
conformidade com a Honra Onipresente dos Ancestrais Superiores Consagrados ao
Altíssimo.
Mago Natu prosseguiu sua santificada homilia, ao tempo em que as quatro
vestais que levavam as oferendas dos elementos sal, azeite, enxofre e azougue, em suas
salvas de prata, caminharam à frente, lentamente, até os pontos onde se erguiam os
quatro vértices da pirâmide de madeira. Mago Natu continuou sua oratória
recebendo-lhes as oferendas e depositando-as, uma a uma, na frente, atrás, à esquerda e
à direita de Urucumacuã, que se encontrava dentro da pirâmide, sob o prisma de cristal.
Com o cabochão diamante que recebera de sua mãe na cerimônia de
consagração ao amanhecer, o príncipe elevou aos céus o precioso presente nas conchas
das mãos e viu quando uma chama de fogo azul e vermelha, no formato de um olho,
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saiu do diamante e veio até a direção dos seus pés. Quase tocando o chão, a chama se
dividiu em duas, uma azul e outra vermelha, entrando cada uma por um dos dedões dos
pés e percorrendo-lhe vagarosamente as pernas em direção à cabeça. Na altura de seus
órgãos sexuais, as duas chamas entrelaçaram-se e seguiram pela sua coluna vertebral,
cruzando-se em outros seis pontos distintos coluna acima, até voltar a se unir numa só
chama que se colocou no topo de sua cabeça.
Por onde se cruzavam aquelas duas chamas de energia, uma área de luz se
projetava do corpo, proporcionando ao príncipe uma visão radiográfica que suas roupas
brancas não o impediam de perceber. Ele mesmo podia enxergar o funcionamento
harmônico de seus órgãos internos, músculos, ossos, nervos, veias azuis e vermelhas,
numa maravilhosa radiografia tridimensional de si. Entrou em sublime êxtase e, ao
olhar o cabochão diamante em suas mãos, percebeu que ele ganhara uma abertura no
centro que correspondia à medida de seu dedo médio. Intuitivamente, colocou-o no
dedo, sentindo uma corrente eletrizante percorrer seu corpo, pleno de força.
Poucas pessoas na plateia se davam conta do que estava acontecendo,
reparando somente nas palavras e na movimentação que o Mago Natu promovia em
redor do príncipe, no centro da pirâmide. Concluída a ritualística de entrega dos quatro
elementos, nas salvas com as recomendações quanto ao modo de usá-las e das
transformações alquímicas possíveis por intermédio das substâncias, o dirigente da
cerimônia derramou sobre a cabeça do Príncipe Urucumacuã uma pequena ânfora de
nardo, espalhando-o sobre seus cabelos ruivos. O perfume daquela essência
propagou-se pelo ambiente, exalando tão agradável fragrância que todos se inebriaram
com o aroma suave e penetrante.
Ouviam-se, das quatro direções, sons harmoniosos de harpas e saltérios e, à
medida que aumentavam o volume da música, quatro tocadores de tambor, em ritmada
cadência, se aproximaram da pirâmide, postando-se diante dos vértices do emblemático
monumento de costas para o príncipe. Urucumacuã deitou-se no chão sobre um tapete
azul ao comando do Mago Natu que, à aproximação dos batedores de tambor, iniciou a
leitura das doze tarefas que o Príncipe da Beira do Rio teria de cumprir num curto
prazo, até o dia de se casar, para se tornar digno e capaz de receber o trono, a coroa e o
cetro do Imperador do Elo Dourado, Rei Médium, para sucedê-lo no poder. Explicando
com detalhes cada um dos doze trabalhos, rememorando acontecimentos miraculosos
passados naquele reinado e em alguns outros vizinhos, antes, durante e depois de seu
nascimento, enumerou-os:
— “Em primeiro lugar, construirás para ti a Torre do Tesouro, sete medidas
abaixo do chão, onde guardarás, nas entranhas da Terra, em local secretíssimo, todo o
ouro e pedras preciosas que amealharás em tua existência.
— Tarefa segunda: Destruirás para sempre a fantasmagórica Mula Sem
Cabeça.
— Tarefa terceira: Desencantarás a Cobra Grande, transformando-a novamente
no Rei Negro Norato, para que as más águas que descem do rio Negro para o Grande
Rio, sendo recebidas, se desfaçam.
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— Tarefa quatro: Desencantarás, se assim desejar, a Pirarara e sua filha
Kaxara; os príncipes Pintado e Surubim, se quiseres, poderão voltar a ser humanos;
Rainha Trapa não deixará de ser enguia, porque sua ambição não permite.
— Tarefa cinco: Expulse para as águas salgadas o irmão que botou na irmã, e
que seu filho, Pirarucu, não o acompanhe.
— Tarefa seis: Não permitirás que a Senhora Pan Thera, a Sonça Pintada,
continue carregando em seu pescoço o colar de esmeraldas que pertence à Rainha
Alzira, nem mantenha sobre a cabeça o diadema de brilhantes que era da Rainha Araci;
retirai-os, e a mulher-fera voltará ao seu formato natural.”
Ao pronunciar essa ordem, ouviu-se um grande esturro, abafando o rufar dos
tambores. A plateia, assustada, olhou ao mesmo tempo para a direção norte e viu se
aproximar, pela ala entre as bancadas de areia que se ligava ao vértice norte da
pirâmide, um corpo semelhante ao de mulher, trajado de véus transparentes e rendas
brancas, muito ornamentada e reluzente. Sua cabeça, porém, era de felino e portava um
diadema de muitos brilhantes. A visão despertava medo e fascínio ao mesmo tempo.
Uma fera num corpo de mulher. Alheia a toda a ritualística que se desenrolava naquele
cenário, aquele ser encantado caminhou até o portal norte, parou diante do príncipe, que
continuava deitado sobre o tapete azul-turquesa e, colocando-se sobre as quatro patas,
abaixou a cabeça, encostando o nariz na cabeça do príncipe.
Erguendo-se, Urucumacuã impôs as duas mãos sobre os olhos da fera,
hipnotizando-a. Em total submissão, a fera aquietou-se, permitindo que lhe despojasse
do diadema de brilhantes e do colar de esmeraldas. Ao comando de um gesto, na mesma
hora, a fera transformou-se num portentoso animal de pelagem dourada brilhante com
manchas negras, retornando na direção Sul, desparecendo no florestal de onde viera. O
diadema de brilhantes nas mãos do Príncipe Urucumacuã resplandeceu, irradiando
faíscas luminosas que preenchiam todo o espaço interno da pirâmide. Mago Natu,
sereno e circunspecto, prosseguiu a ritualística, pedindo que o iniciado se conservasse
de pé para ouvir as outras seis tarefas:
— Sétima tarefa: Quebrarás a maldição do Conde Rasku, para que a parte do
lobo que ora vive nele não mais se manifeste e que toda sua maldade se desfaça na
sexta-feira de lua minguante.
Os tambores aumentaram a cadência das batidas, elevando o som, quando essa
tarefa foi anunciada. Alguém lá no fundo da plateia se levantou, subiu na plataforma de
areia, atrás da bancada, e gritou:
— Essa tarefa é minha. Não deixarei ninguém meter o bedelho. Essa eu mesmo
executo. Tenho um acerto de contas com o maldito do Conde Rasku. Se Bruxo Neno o
amaldiçoou. Só Bruxo Neno pode tirar a maldição!
Assim o Bruxo Neno se mostrou. Ninguém, no entanto, prestou atenção àquele
elemento alheio ao ritual, nem houve manifestações de apoio ou desagrado a sua
indesejável interferência. Até aquele momento, a presença do Bruxo Neno passara
despercebida e indiferente aos súditos, embora não se pudesse compará-lo a nenhum
deles. Diferia fisicamente dos demais, é verdade, não só pela cabeça raspada, mas
também pela longa barba negra que deixara crescer fazia algum tempo. Desde que Rei
Mor resolvera adotar um novo figurino, deixando a barba crescer, Bruxo Neno também
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adotara o mesmo estilo. Mago Natu prosseguiu, então, como se ninguém o houvesse
interrompido:
— “Oitava tarefa: Trarás do mundo das fantasias o menino Sacipe Ererê e seu
corcel negro, o Tição, invisíveis e imortalizados desde o quarto dia do teu nascimento
— Nona tarefa: Recuperarás o bridão de ouro encantado que pertenceu ao teu
tio Albe, o Rico, esteja ele com quem estiver e onde estiver.”
Bruxo Neno se levantou de novo. Mesmo sem solicitações, manifestou-se aos
brados:
— Isso também é comigo, Mago Natu. O bridão encantado está comigo e
ninguém tasca! Mas podemos negociar. Eu o entrego mediante uma condição: se
Príncipe Urucumacuã se casar com minha filha Angelin, a moça mais Bela de Trindade!
Do contrário, nem bridão encantado, nem casamento com filha de rei.
— Acalme-se, Bruxo Neno. O bridão encantado não é vosso e vós o sabeis.
Príncipe Urucumacuã já tem compromisso de casamento, desde que nasceu. Sabeis que
ele está noivo. Portanto, não poderá se casar nem com vossa filha nem com a filha de
outro rei.
— Isso é o que veremos, Mago Natu... É o que veremos!
Mago Natu solicitou que as pessoas permanecessem em silêncio, devido ao
tumulto ocasionado pelas intervenções do Bruxo Neno. Voltando à enumeração das três
últimas tarefas, prosseguiu:
— Tarefa de número dez: Descobrirás quem furtou os pedaços do Espelho
Universal que estavam nas sete caixas de metal, para recolocá-los no local de onde não
deveriam ter saído.
Esperava-se que Bruxo Neno se manifestasse novamente. Mago Natu estava
certo de que fora ele quem furtara os estilhaços do espelho mágico que o Rei Médium
quebrou e depois condicionou no fundo das sete caixas de metal, na manhã do sexto dia
das festividades comemorativas ao nascimento dos príncipes gêmeos. Dado o silêncio
do bruxo, Mago Natu resolveu instigá-lo, provocando-o para que ele confessasse,
confirmando publicamente estar de posse dos fragmentos do espelho e das sete caixas
de metal:
— Um dentre vós permaneceis com os sete estilhaços do Espelho Universal,
colocados no fundo das sete caixas furtadas no sexto dia das festas de nascimento dos
príncipes Urucumacuã e Kurokuru. Devereis devolvê-los ao Príncipe Urucumacuã. Do
contrário, tereis aflições e embaraços por sete anos seguidos.
Houve um silêncio prolongado. A maioria da plateia olhou na direção do
Bruxo Neno, esperando que ele se entregasse. Devido ao comportamento indiferente do
bruxo, Mago Natu prosseguiu:
— Vamos à tarefa de número onze: submeterás o Mapinguari a tua vontade,
mas não o aniquilarás. É preciso que ele cumpra sua sina.
À menção daquele nome até então desconhecido dos espectadores, Bruxo Neno
se levantou e novamente interpelou Mago Natu:
— Podeis nos explicar quem é este tal de mapinguari que dissestes agora
mesmo?
— Este é um segredo que não chegareis a conhecer, Bruxo Neno.
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— Por acaso estais troçando comigo? Quereis mangar de mim? Existe alguma
coisa que Bruxo Neno não conheça?
— Sim, Bruxo Neno. Não conheceis, nem conhecerás a ti mesmo. Este é o
segredo do Mapinguari!
A plateia toda vaiou Bruxo Neno. Contrariado e raivoso, ele se retirou.
Indiferente à atitude do bruxo, Mago Natu concluiu a lista das tarefas:
— E por fim, a última tarefa: Contarás a verdade ao Rei Mor, para que sua
geração seja conhecida.
Bruxo Neno já se ausentara, mas não estava distante o suficiente para não ter
ouvido a décima segunda tarefa que o Príncipe Urucumacuã teria de cumprir. Ouvindo o
nome do Rei Mor, volveu rapidamente, e de frente ao Mago, perguntou:
— Que verdade é essa que Rei Mor não conhece? Pensais que não tenho feito
previsões e contado ao meu rei segredos que ele não conhecia?
— Também não conheceis a verdade, Bruxo Neno. Tampouco tereis tempo de
conhecê-la! Melhor até que não a conheças.
O bruxo, aparentemente contrariado, tentou interromper outra vez o
interlocutório, interferindo no ritual da Sagração do Príncipe, mas Mago Natu preveniu
a inconveniência e não permitiu que a celebração mudasse de rumo. Volvendo ao
cumprimento normal da ritualística, o Mago adentrou o interior da pirâmide onde o
Príncipe Urucumacuã se mantinha em estado de concentração e meditação,
prosseguindo uma cantilena incompreensível à plateia, porém mais audível à medida
que aumentava a tonalidade da voz. Invocando forças da natureza e seus elementais, o
rito chegou ao ápice quando se ouviu um forte estrondo na direção do horizonte,
acompanhado de um clarão originado de um raio precipitado de uma única nuvem
azulada que pairava sobre o monumento de madeira, energizando de uma luz vermelha
o cristal que pulsava no cume da pirâmide.
Na base inferior do cristal, fagulhas luminosas no formato de salamandras se
desprendiam, saltando e preenchendo todo o espaço interno do monumento, circulando
em órbitas nucleares ao redor do corpo iluminado do príncipe, num espetáculo mágico,
nunca apreciado até então. A plateia, fascinada, admirada e reverente, aguardava o
desfecho da cerimônia para se dirigir ao Palácio Fortaleza, onde um grande banquete
esperava pelos convidados. Na oportunidade, o Imperador anunciaria a data do
casamento do Príncipe Urucumacuã com a Princesa Irina, de Avilhanas.
Concluindo o protocolo cerimonial, Mago Natu relembrou ao príncipe as doze
tarefas que teria de cumprir, classificando-as pela ordem temporal de execução. Antes
de se casar, apenas uma das doze teria de estar totalmente concluída: a edificação da
Torre do Tesouro ou a Grande Obra.
A misteriosa Grande Obra, a Torre do Tesouro, contrariamente ao imaginado,
não seria construída do chão para cima, mas do solo para dentro. Tal edificação tanto
serviria de laboratório alquímico, onde o príncipe trabalharia, como também seria o
cofre seguro, onde guardaria seu grande tesouro: todo o conhecimento que adquirira,
materializado sob a forma de cristais e gemas preciosas, metais raros e puríssimo ouro
alquímico. No pavimento mais profundo, onde depositaria a grande pirâmide de cristal,
a flama do Fogo Frio, juntamente à Pedra de Filosofar, ocultaria ainda seu repositório de
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rubis, esmeraldas e diamantes. Naquele sagrado lugar, nenhum outro mortal conseguiria
chegar, sem antes ter se submetido à construção de seu segundo corpo.
Mago Natu resumiu sucintamente os detalhes da construção, enumerando os
nove pavimentos que deveriam ser edificados em formato de espiral, com degraus de
cima para baixo, correspondendo cada um deles às virtudes que o Príncipe Urucumacuã
alcançara, depois das provações que vencera durante o longo período de tempo em que
se ausentara, submetendo-se aos rituais exaustivos da secretíssima Iniciação nos
Mistérios do Fogo: no primeiro estágio, no primeiro piso, ficaria o compartimento da
Coragem; no segundo, a Disciplina; no terceiro, a Laboriosidade; no quarto, a
Independência; no quinto, a Perseverança; no sexto, a Generosidade; no sétimo, a
Fidelidade; no oitavo, a Honra; e no nono e mais profundo de todos, o pavimento da
Verdade.
Para finalizar a cerimônia, Mago Natu entregou-lhe uma chave de ouro
cravejada de brilhantes e a espada que o Rei Médium mandara o ferreiro Kalibur fundir,
enquanto aguardava seu nascimento. Solenemente, reverenciou o príncipe, tocou a base
da pirâmide de cristal com a ponta da espada, desenhando um símbolo no formato de
uma ave de asas abertas, cuja marca ficou insculpida no cristal como se uma lâmina de
fogo sulcasse o material sem nenhuma resistência. Por fim, disse:
— É possível que tua marca seja ocultada pelas cinzas do tempo. Por milhares
de anos, a pedra do fogo frio e teu valioso tesouro serão insistentemente procurados,
mas somente o Homem que não cede aos desejos inferiores, aquele cuja capacidade de
criar em si mesmo o fogo que transforma seu mundo interior e todos os outros mundos
numa integridade única, poderá encontrar a pedra da felicidade eterna. Visita Interiorem
Terrae, Rectificandoque, Invenies Occultum Lapidem. (Vá às profundezas da terra e
reforma-te, para que encontres a pedra oculta da felicidade).
A maioria dos espectadores, não compreendendo o significado hermético do
que Mago Natu proclamava, aos poucos se ausentara do local. Permanecia, ao final, um
grupo restrito de sábios e intercessores, cortesãos do Grande Rei, do Rei Médium e da
Rainha Gônia. Concluindo a celebração, diante da ausência da maioria dos súditos, após
o juramento de compromisso do Príncipe Urucumacuã em observar todos os princípios
da Antiga e Misteriosa Ordem do Pássaro de Fogo para vencer a obscuridade, recebida a
benção, Mago Natu proclamou:
— A ninguém será dado o direito de tocar fisicamente no Príncipe
Urucumacuã, até que conclua sua Grande Obra. Muitos virão em seu auxílio, outros o
tentarão, mas seu corpo não poderá ser profanado, nem mesmo derramado ao solo o
conteúdo de seu vaso sagrado, para que seu despertar consciente permita que se
transforme num dominador ou em potência visível e invisível. Esse domínio, verdadeira
salvação, será possível somente aos que assim buscarem e desejarem; aos que
desafiarem a coragem; aos que se dispuserem lutar para vencer a si mesmos; laborar
perseverantemente, a fim de conseguir esse despertar. É necessário destruir os próprios
limites e encontrar-se com os sofrimentos interiores, fragmentados pelos embates da
sobrevivência. A destruição desses limites requer prolongado esforço, até que não haja
mais fronteiras entre morrer e viver. Decorre deste estado interior de arrebatamento, a
criação do único fogo que não queima, mas que funde num só, o conhecimento de todas
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as experiências vividas até então. Igne Natura Renovatur Integra. Ite missa est. (Só o
fogo renova toda a Natureza. Ide, a cerimônia acabou).
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