LEMBRANÇAS DE ALBA ESMERALDA
Em Avilhanas, Rainha Alzira e Rainha Alimpa, sogra e nora, tomavam o chá
da tarde. Debaixo de uma frondosa samaúma, completamente cor-de-rosa pela
exuberante florada, as duas conversavam demoradamente. A mulher de Calico ouvia
atentamente as narrativas da sogra a respeito das memórias de sua filha de criação, Alba
Esmeralda, mãe precoce do menino Mulato, cujo destino trágico permanecia encoberto
aos súditos e velado à maioria dos palacianos. Sobre a vida de Alba Esmeralda pouco se
comentava, pois sua origem misteriosa jamais fora revelada.
Como testemunha única de sua aparição, Rainha Alzira confidenciou o
episódio com pormenores apenas à nora Araci que, sob juramento, prometeu levar o
segredo ao túmulo, e cumpriu. Depois de rememorar as histórias do Rei Albe, o Rico, e
de sua fabulosa Mula “Tá”, Alzira também contou à nova nora como foi o nascimento
misterioso de Alba Esmeralda, assegurando-lhe que depois da Rainha Araci, ela era a
única pessoa, além do Mago Natu, a saber da história completa. A falecida nora também
ouvira sob juramento de que jamais contaria a qualquer outra pessoa, incluindo o
próprio marido. A parte final da história de Alba Esmeralda deixou a Rainha Alimpa
deveras impressionada.
— Por favor, Alzira, conte-me mais detalhes do envolvimento de Calico e
Rasku com Alba Esmeralda.
— Ah, sim, coisas de rapazotes! Calico tinha 17 anos e Rasku 14. Mas Rasku
parecia mais velho, porque era mais encorpado e muito, mas muito mais malicioso do
que o irmão. Até hoje não temos certeza nem podemos assegurar que Mulato seja filho
de um ou de outro. Na época, os dois se aproveitaram igualmente da inocência e da
ingenuidade de Alba Esmeralda. Ela tinha uma formosura diferente. Era aleijada dos
pés, desde o nascimento. Quando a tive em minhas mãos, reparei que seus pés eram
meio redondos, à semelhança de uma pata equina, sem dedos. Fora esse defeito físico
que a fazia andar meio trotando, tinha um rosto de extraordinária beleza. Sua longa
cabeleira parecia um véu negro a lhe escorrer pelos ombros e seus olhos eram
fascinantemente verdes. Foi o rosto feminino mais belo que já vi, porque o masculino,
continua sendo o de Rasku, concordas?
— Sim, evidentemente! Até hoje não vi homem de rosto mais belo!
— Então, fiz alguns interrogatórios com Calico, jurou-me sempre e nunca se
contradisse, que não foi o primeiro a seduzi-la. Rasku jamais admitiu ter sido ele,
acusando sempre o irmão... Enfim, Alba Esmeralda era surda-muda de nascença. Nunca
se manifestou contra um ou a favor de outro. Certo é que Mulato nasceu e se parece
mais com Rasku do que com Calico. Pela responsabilidade que Calico sentia de também
ter se abrasado pelos encantos e enlevos amorosos de Alba Esmeralda, assumiu a
paternidade do menino.
— Explique-me, Alzira, como foi o encantamento de Alba Esmeralda num
pássaro?
— Ah, este episódio apenas a Senhora Natividade da Luz presenciou. Ela,
somente ela, estava nos aposentos junto de Alba Esmeralda no momento em que dava à
luz. A moça sofreu muito, ficou sete dias inteiros em doloroso trabalho de parto.
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Pensávamos que fosse morrer junto com a criança. A parteira nos lembrou de que, no
meio das dores atrozes, na última vez em que ela emitiu um grande gemido e forçou a
criança a nascer, deu um suspiro profundo e um gemido prolongado. Na mesma hora, a
criança saiu. Quando a Senhora Natividade olhou o recém-nascido para cortar o cordão
umbilical, o menino chorou e o corpo de Alba Esmeralda encantou-se, ficando sobre os
lençóis apenas sua placenta. Bem, naquele momento, ela presenciou uma ave branca
saindo de cima da cama e voando pela janela, ganhando o espaço azul do céu, naquela
tarde quente de verão. Sentindo que a jovem mãe se libertara daquele tormento e pela
dor atroz que a torturou durante sete dias contínuos, denominou aquele pássaro surgido
misteriosamente de Alba Atroz.
— Incrível! Calico soube disso?
— Soube. Mas nunca tocou nesse assunto comigo. É melhor que fiques calada
também.
— E Rasku? Admite que pode ser ele e não Calico o pai de Mulato?
— Esse assunto já foi encerrado. Calico assumiu a paternidade de Mulato e
ponto. Por isso chamam o menino de Calico Filho, o Mulato. Conde Rasku nunca se
interessou pelo menino, desde que nasceu. Sempre o desprezou. Parece até que o odeia.
Talvez seja porque Mulato tenha o mesmo defeito nos pés que Alba Esmeralda, e seja
surdo-mudo de nascença tal qual a mãe. Incomoda a Rasku admitir que além de
bastardo, um aleijado seja tratado em nossa corte como fidalgo. Mais de uma vez,
tentou imputar a Mulato a autoria de alguns de seus deslizes. Só não conseguiu o intento
graças à boa sorte de Mulato. Mais de uma vez, pode contar com o testemunho
favorável do Senhor Álibi, que estivera com Mulato nos dias e horários em que Rasku o
acusara de furtar alguns de seus animais. Além de premeditado, Rasku é de uma frieza
sem precedentes. Não acreditamos na possibilidade de qualquer gesto de amor
verdadeiro que possa vir de sua parte.
— Referi-vos ao episódio das “lhe enguiças” em nosso casamento?
— Certamente. Todas as pessoas que comeram daquelas carnes adoeceram
seriamente, e estão como crianças a choramingar. Ainda bem que o Mago Natu nos
preveniu a deixá-las no prato, pois que estavam “contaminadas”.
— Acaso Mago Natu revelou depois que tipo de contaminação?
— Contou-nos sob juramento algo mais terrível do que qualquer um de nós
poderia imaginar...
— Que horror! Podeis me dizer?
— Que jamais saia de sua boca o que ouvireis agora: aqueles embutidos de
carne de caça foram preparados com a carne picadinha de alguns dos inocentes, seus
próprios filhos, que ele assassinou para depois queimar a casa com as mães e os outros
filhos.
Rainha Alimpa ficou lívida. O sangue lhe gelou nas veias e uma sensação de
nojo e náuseas quase a fizeram desmaiar. Sem fala, por alguns instantes, passou pela
lembrança a figura esdrúxula e aterrorizante do enorme animal com a cabeça humana e
o rosto do Conde Rasku que ela vira de sua janela na noite anterior ao seu casamento,
quando a Casa das Moças que Pintam e Bordam foi incendiada com as mulheres e seus
filhos. Ela não queria mais tocar naquele assunto. Era forte ao extremo para sua
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natureza sensível e humanizada. Rainha Alzira percebendo o choque que a revelação
provocara na nora, mudou de assunto, indagando-lhe:
— Tens notado alguma melhora no comportamento de Irina?
— Causa-me preocupação no momento. Calico também percebeu que desde a
morte da mãe, ela não sorri, passa a maior parte do tempo brincando com “Boneca”...
— Pois então, aproxima-se o tempo em que o noivo voltará. Tanto mais o dia
se avizinha, mais ela demonstra desinteresse pelo casamento. Tenho comigo que o
futuro de Irina será uma tragédia... Pressinto que não será feliz.
— Como assim? O Príncipe Urucumacuã é o mais cobiçado entre todos os
casadoiros destes reinados. Além de belo, é educado, gentil e herdeiro de um império
fabuloso.
— O problema não é com o noivo, Alimpa. O coração de Irina parece que
morreu para os prazeres do mundo. Sua ligação com a mãe era mais forte do que
imaginávamos. Dói saber que a tristeza e o sofrimento se apoderaram de tão jovem e
angelical criatura.
Ao referir-se aos dons e talentos de Urucumacuã, o noivo e futuro esposo da
Princesa Irina, enumerando suas incontáveis virtudes, Rainha Alzira foi interrompida
pelo toque dos dois sinos de bronze e o soar das trombetas anunciando visitantes. Ao
toque dos sinos, as duas amigas se levantaram e atravessando o imenso pátio gramado,
com seus magníficos jardins cuidadosamente tratados, foram ao portão principal do
Palácio desejar as boas-vindas aos forasteiros. Os estandartes dourados empunhados
pelos cavaleiros dos corcéis brancos, eram conhecidos e foram imediatamente
identificados naquela Casa Real. Tratava-se dos mensageiros do Imperador do Elo
Dourado, Rei Médium. Logo os portões internos do Palácio das Esmeraldas se abriram
e a nobre comitiva, agraciada com as civilidades palacianas, era conduzida até o Salão
do Trono, onde Rei Naldo despachava com seus tribunos assuntos diversificados, todos
do interesse do reinado e de sua população.
Rainha Alzira e Rainha Alimpa gentilmente convidadas pelo Mestre-Sala,
Senhor Kari Jó, adentraram o Salão do Trono, juntamente com a comitiva do Rei
Médium. Reverente e solene, o Mensageiro Real entregou ao Rei Naldo um rolo de
pergaminho, lacrado com a efígie do Império do Elo Dourado. De posse do documento,
Rei Naldo quebrou o lacre, cortando-o com seu pequeno punhal de prata. Abriu o
documento, leu-o primeiro silenciosamente, dando ciência à atenciosa plateia, em alta
voz, apenas da conclusão da minuciosa e extensa missiva:
“Com prazer e honra, faço-vos ciente de que a volta do Príncipe Urucumacuã à
casa paterna, neste Império do Elo Dourado, será soberanamente festejada com pompa e
galhardia, quando Vossa Real Família aqui se encontrar para celebrarmos o casamento
dos nossos filhos, Urucumacuã-Irina e Gesu Aldo-Hévea. Aguardaremos Vossa vinda
aqui, no tempo em que Vos aprouver, conforme acordo já firmado consoante nossas
vontades, quando, então, uniremos nossos filhos e reais herdeiros em sagrado
matrimônio, selando destarte o pacto que propusemos desde o tempo de seus
nascimentos, para perpetuarmos nossas descendências, em honra e glória de nossos
ancestrais. No aguardo da resposta confirmando a data de Vossa vinda já na próxima
estação, quando a conjunção da Lua em Gêmeos estiver na Casa Astral de Vênus,
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saúdo-vos em nome desta Casa Real em Fortuna e Paz. Assina, Rei Médium – Elo
Dourado Imperator”.
Uma longa sessão de aplausos se ouviu. No rosto da Rainha Alzira,
emocionada, copiosas lágrimas rolaram de seus verdes olhos. Disfarçando a comoção,
secou-os com toques suaves, exibindo um belo e delicado lenço que usava, lembrança
da amiga, Rainha Ália, justificando-se com a nora:
— Não consigo identificar se estou mais alegre ou mais triste!
— Compreendo. Lágrimas de tristeza e de alegria possuem a mesma cor.
Rei Naldo, em seguida, sentou-se numa escrivaninha de ébano, incrustada de
florões de ouro, cravejada de esmeraldas, e iniciou a missiva em resposta à longa
epístola do Rei Médium. Confirmou sua ida em companhia dos mais proeminentes
membros de sua Corte na data que já haviam combinado previamente, marcando
também a viagem da Princesa Irina e do Príncipe Gesu Aldo ao Elo Dourado, com
antecipação de sessenta dias da data das núpcias, a fim de que se cumprissem os rituais
estabelecidos para adaptação dos futuros cônjuges às transformações e mudanças de
hábitos e costumes das novas Cortes às quais pertenceriam.
Concluindo a escrita, lacrou com o selo do Reinado de Avilhanas o rolo que
cuidadosamente colocou num canudo de madeira, e ordenou aos seus arautos que a
partir do dia seguinte percorressem todo o reinado para anunciar as núpcias de seus
filhos, convidando todos os súditos para a festa do casamento no Elo Dourado e depois
no próprio reinado de Avilhanas. Selados os compromissos, dirigiram-se todos ao salão
de jantar, onde um lauto banquete já estava à mesa. Na oportunidade, Rei Naldo,
sentado à cabeceira da extensa mesa ao lado da mulher, anunciou e apresentou os
visitantes, convidando os comensais que ainda não sabiam o motivo de suas visitas a se
programarem para a viagem ao Elo Dourado em função das festividades do casamento
da Princesa Irina e do Príncipe Gesu Aldo.
Naquela noite, Conde Rasku, de passagem pelo Palácio das Esmeraldas,
resolveu esperar o jantar. Conversou com poucas pessoas e à mesa dos familiares
comportou-se com mais discrição do que de costume. Retirou-se com seus lacaios tão
logo serviram a sobremesa e o chá digestivo, sem se despedir formalmente da mãe, nem
do irmão e sua esposa. Chegou em casa quase de madrugada. Não conseguia dormir.
Passou o restante daquela noite sem repouso. Todos os seus perversos pensamentos
voltavam-se agora ao planejamento para impedir que o casamento dos seus detestados
sobrinhos se concretizasse.
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